Curitiba e o mito do planejamento urbano perfeito
A cidade que virou referência mundial em planejamento urbano enfrenta hoje contradições que o modelo exportado não conta.
Curitiba tem um problema com sua própria lenda. Durante décadas, a cidade foi vendida — e se vendeu — como o modelo de planejamento urbano que o Brasil deveria seguir. Ônibus expressos, parques lineares, separação de resíduos, ciclovias. A narrativa era sedutora e, em muitos aspectos, verdadeira.
Mas toda narrativa tem lacunas. E as lacunas de Curitiba são hoje tão visíveis quanto suas conquistas.
O que o modelo não incluiu
O planejamento urbano curitibano dos anos 1970 e 1980 foi, em grande medida, um planejamento para uma cidade de classe média. As soluções de transporte, os parques, as áreas de preservação ambiental — tudo isso foi projetado para uma cidade que, na prática, excluía sua periferia.
Enquanto o centro e os bairros nobres recebiam investimentos em infraestrutura e qualidade urbana, as regiões periféricas cresciam de forma desordenada, com serviços precários e sem acesso às benesses do "modelo Curitiba". Essa divisão persiste até hoje, e é o elefante na sala que as apresentações sobre o planejamento curitibano raramente mencionam.
A metrópole que o modelo ignorou
Curitiba não existe isolada. Faz parte de uma região metropolitana com mais de três milhões de habitantes, onde municípios como São José dos Pinhais, Colombo e Almirante Tamandaré cresceram de forma acelerada e desordenada, absorvendo a população que não encontrou espaço na capital planejada.
A gestão metropolitana é o calcanhar de Aquiles do modelo curitibano. Enquanto a capital construiu sua reputação, a região ao redor crescia com os problemas que o planejamento da capital não resolveu — apenas deslocou.
Isso não invalida as conquistas reais de Curitiba. Mas exige que a narrativa seja mais honesta sobre o que foi alcançado, para quem, e a que custo.