Urbanismo

Curitiba e o mito do planejamento urbano perfeito

Renata Hoffmann Renata Hoffmann · Editora-chefe 2026-06-01 Atualizado: 2026-06-03
Curitiba e o mito do planejamento urbano perfeito

A cidade que virou referência mundial em planejamento urbano enfrenta hoje contradições que o modelo exportado não conta.

Curitiba tem um problema com sua própria lenda. Durante décadas, a cidade foi vendida — e se vendeu — como o modelo de planejamento urbano que o Brasil deveria seguir. Ônibus expressos, parques lineares, separação de resíduos, ciclovias. A narrativa era sedutora e, em muitos aspectos, verdadeira.

Mas toda narrativa tem lacunas. E as lacunas de Curitiba são hoje tão visíveis quanto suas conquistas.

O que o modelo não incluiu

O planejamento urbano curitibano dos anos 1970 e 1980 foi, em grande medida, um planejamento para uma cidade de classe média. As soluções de transporte, os parques, as áreas de preservação ambiental — tudo isso foi projetado para uma cidade que, na prática, excluía sua periferia.

Enquanto o centro e os bairros nobres recebiam investimentos em infraestrutura e qualidade urbana, as regiões periféricas cresciam de forma desordenada, com serviços precários e sem acesso às benesses do "modelo Curitiba". Essa divisão persiste até hoje, e é o elefante na sala que as apresentações sobre o planejamento curitibano raramente mencionam.

A metrópole que o modelo ignorou

Curitiba não existe isolada. Faz parte de uma região metropolitana com mais de três milhões de habitantes, onde municípios como São José dos Pinhais, Colombo e Almirante Tamandaré cresceram de forma acelerada e desordenada, absorvendo a população que não encontrou espaço na capital planejada.

A gestão metropolitana é o calcanhar de Aquiles do modelo curitibano. Enquanto a capital construiu sua reputação, a região ao redor crescia com os problemas que o planejamento da capital não resolveu — apenas deslocou.

Isso não invalida as conquistas reais de Curitiba. Mas exige que a narrativa seja mais honesta sobre o que foi alcançado, para quem, e a que custo.


Renata Hoffmann
Renata Hoffmann
Editora-chefe

Economista e jornalista. Formada pela UFPR com mestrado em economia urbana pela PUC-PR. Escreve sobre desenvolvimento regional, planejamento urbano e inovação econômica no Sul do Brasil.

Leia também